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Madalena planeja incluir a palma na merenda escolar

A aprovação das crianças, de 10 a 12 anos, foi fundamental para o planejamento da introdução do alimento

Postado por: Sert News

22/07/2017 às 22h42 atualizado em 22/07/2017 às 22h42

Madalena planeja incluir a palma na merenda escolar
Foto: Alex Pimentel

Madalena. Uma cactácea comestível produzida em abundância no sertão do Ceará, a palma, será introduzida na merenda escolar da rede municipal deste Município do Sertão Central que tem na agropecuária a sua principal fonte econômica. A divulgação foi feita pelo secretário municipal de Educação, Esporte, Cultura, Juventude e Turismo Antônio Ribeiro Barros. Acompanhado da prefeita Sônia Costa e de um grupo de crianças, ele experimentou o cardápio especialmente preparado pela equipe da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce), na cidade, distante 180Km de Fortaleza.

A responsável pelas pesquisas, iniciadas em 2009, é a técnica extensionista da Ematerce, Lúcia Vitoriano. Entusiasta da espécie vegetal importada do México, ao aprofundar seus estudos, além de encontrar semelhanças com verduras e leguminosas muito utilizadas à mesa dos cearenses, ela identificou proteínas muito importantes para a saúde humana, dentre elas a vitamina A, o ferro e o cálcio. Em comparação ao tomate, tem 20 vezes mais cálcio. Restava aprontar as receitas certas para agradar o paladar. Então resolveu criar o cardápio especial.

O secretário, a prefeita e os estudantes da Escola de Ensino Fundamental Dau Alberto, da comunidade de Cajazeiras, distante 6Km do Centro da cidade, onde a palma é muito cultivada, foram convidados para o "banquete", realizado no escritório da Ematerce em Madalena. Pastelzinho, sorvete, dindin, paçoca, salada, suco, não faltou opção e sobraram elogios. Houve até comparações do cactáceo frutas muito populares, como a banana, pelo sabor; e abacate, pela cor. Não sobrou nada na mesa.

A aprovação das crianças, de 10 a 12 anos, foi fundamental para o planejamento da introdução da palma na merenda escolar. As merendeiras das 18 unidades escolares e das três creches administradas pelo Município serão capacitadas ainda neste mês de julho.

As nutricionistas também serão convidadas a avaliarem e estabelecerem o balanceamento alimentar correto. Quando retornarem às aulas, os 3,4 mil alunos serão surpreendidos. Embora haja uma diversidade de opções, a palma será introduzida aos poucos no cardápio, explicou o secretário, Ribeiro Barros.

Para a coordenadora da Escola de Ensino Fundamental Dau Alberto, Juliana Fernandes Pinheiro, a iniciativa é muito interessante. Foi uma novidade para ela e o grupo de dez estudantes que a acompanharam, quanto mais para o restante dos colegas e professores. O difícil vai ser guardar segredo até o retorno das aulas, no início de agosto. "Não duvido alguém começar a pedir à mãe para preparar alguma sobremesa". Na localidade onde eles moram, a planta existe em abundância nos quintais das casas. São 18 produtores.

Cuidados

A prefeita Sônia Costa indagou acerca de alguma contraindicação da palma. De acordo com a pesquisadora, como se trata de um excelente diurético e laxante, é preciso apenas evitar os excessos. Mas isso ocorre com qualquer alimento digerido de forma exagerada. Como a alimentação nas escolas é controlada, não haverá problemas, garante. "Nossas crianças querem merendar e a merenda sempre tem que ter um sabor agradável. A contar pelo que vi no rosto de quem já saboreou, as nossas escolas terão um atrativo a mais", acrescentou a prefeita.

Sobre os cuidados, Lúcia Vitoriano esclarece serem necessários os mesmos do preparo de qualquer alimentação. A higiene é muito importante. Além das mãos e dos talheres, os brotos das raquetes de palma devem ser lavados em água natural. O tamanho da peça vegetal também deve ser observado. Para os alimentos, devem ser utilizados os brotos, vez que neles se formam apenas falsos espinhos. O corte deve ser feito em pequenos pedaços e não triturados ou transformados em pasta.

Para os sucos, é misturar à água em proporções de um para três ou mais e adicionar açúcar a gosto. Para as sobremesas congeladas, o sorvete e o dindin, não é diferente. Apenas devem ficar mais tempo no congelador. Nos pastéis, com a massa tradicional, a palma pode ser misturada à carne, queijo ou algum outro alimento, a gosto de quem for preparar. A fritura segue o processo convencional.

O mesmo ocorre na mistura com o arroz, no cozimento e na paçoca. Esses alimentos têm um limite de conservação. Mas no caso da palma, pode ser conservada por longo período.

Agricultura familiar

Além dessas vantagens a palma pode ser incluída no Programa Nacional da Alimentação Escolar (PNAE), onde, no mínimo, 30% das compras são direcionadas aos pequenos produtores da agricultura familiar.

A facilidade de cultivo, durante todo o ano, e o preço, uma raquete é comercializada a R$ 0,20, demonstram a sua viabilidade econômica. Será um lucro a mais para o agricultor. O armazenamento é outro fator positivo. Conservada no refrigerador, a palma não estraga, ressalta a pesquisadora.

A expectativa do Município e da pesquisadora é de a iniciativa se tornar política pública estadual. Com o sucesso nas escolas de Madalena, pode atrair o interesse das escolas do Ensino Médio e, quem sabe, do governo Federal.

Cosmético natural

Além das vantagens na alimentação, a palma também se revela como um excelente cosmético. No decorrer das suas pesquisas, Lúcia Vitoriano encontrou mais um benefício, outra interessante propriedade desse vegetal, o colágeno, que dá firmeza e elasticidade à pele.

Ela ainda está realizando estudos, mas já encontrou os elementos mais importantes de um dos produtos de rejuvenescimento preferidos das mulheres, também muito utilizado pelos homens. Totalmente natural, sem a necessidade de qualquer insumo químico, pode ser utilizado tanto como máscara facial, como ingerido.

Os segredos da pesquisa Lúcia Vitoriano não revela, mas diz estar disposta a negociar com algum laboratório e indústria especializada em produtos de beleza. "A produção de colágeno é o resultado de uma complexa sequência de eventos bioquímicos no interior das células. Pelo fato de o colágeno ser produzido naturalmente pelo nosso organismo, ele pode ter uma produção diminuída ou exagerada, causando alguns danos à nossa saúde", completa a pesquisadora da Ematerce.

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A novas receitas agradaram os estudantes

Entre os alimento degustados pela prefeita, secretário de Educação e alunos, na sede da Ematerce de Madalena, teve pastel, sorvete, dindin, paçoca, salada e suco, não faltou opção e sobraram elogios. Houve até comparações do cactáceo frutas muito populares, como a banana, pelo sabor; e abacate, pela cor (Fotos: Alex Pimentel)

Opinião do especialista - Origem, desenvovilmento e perspectivas

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Maria Lúcia Vitoriano de Lima - Extensionista social da Ematerce em Madalena, pedagoga, especialista em Gestão Ambiental

A palma, que recebeu o subtítulo de forrageira no Brasil, é uma cultura originária do México, bem adaptada às condições adversas do Semiárido. A espécie apresenta-se como alternativa primordial para estas regiões, principalmente para alimentação animal, visto que apresenta aspecto fisiológico especial quanto à absorção, aproveitamento e perda de água, sendo bem adaptada às condições adversas do cenário em questão.

Bastante versátil, a palma forrageira mostra uma grande diversidade no que se refere ao seu uso e aplicações. Apesar de já ser cultivada para alimentação animal, outras oportunidades de uso vêm sendo desperdiçadas, como na alimentação humana, como fonte de energia, na Medicina, na indústria de cosméticos, na proteção e conservação do solo, como corante, na mucilagem e ornamentação, dentre outros.

Segundo Cantwell (2001), "a palma é uma alternativa eficaz para combater à fome e à desnutrição no Semiárido brasileiro, além de ser uma importante aliada nos tratamentos de saúde. É uma cultura rica em vitaminas A, complexo B e C e minerais como Cálcio, Magnésio, Sódio, Potássio além de 17 tipos de aminoácidos. A palma é mais nutritiva que alimentos como a couve, a beterraba e a banana, com a vantagem de ser um produto mais econômico". No México, a palma é tratada como um vegetal nobre e usada do cardápio diário.

Quanto à produtividade, em um hectare podem ser produzidas até 600 mil raquetes. Em dados apresentados sobre as áreas plantadas de palma no mundo, ele mostrou que o México vem primeiro lugar, com 150 milhões de hectares. O Brasil destina 600 mil hectares no Nordeste para o cultivo da planta. Os Estados Unidos ficam em terceiro lugar, com 10 mil hectares.

No Ceará, a cultura da palma forrageira, como ficou conhecida, foi expandida nos municípios por meio do projeto Hora de Plantar, do Governo do Estado, coordenado pela Secretaria do Desenvolvimento Agrário (SDA) e executado pela Ematerce. No período de 2007 a 2017, foram distribuídas, por meio desse programa, 57 milhões de raquetes-semente de palma.

As variedades mais comuns são a palma gigante, orelha de elefante, palma redonda e orelha de onça, da família Opuntia spp e a miúda ou doce, da família Nopalea cochenilifera.

FONTE: Alex Pimentel - Diário Sertão Central

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